A revolução suíça na IA ganha forma com o lançamento do Large Language Model (LLM) público pela Suíça, desenvolvido pela ETH Zurich e pelo Instituto Federal de Tecnologia de Lausanne. Mais do que um avanço tecnológico, a iniciativa estabelece um paradigma de soberania digital que deveria servir como modelo urgente para o Brasil. Caracterizado como um “LLM construído para o bem público”, o projeto demonstra que é possível conciliar excelência tecnológica com a proteção de dados sensíveis e a autonomia nacional em setores estratégicos.
A iniciativa suíça, anunciada em 14 de julho de 2025, marco da revolução suíça na IA, emerge em um contexto global onde a dependência tecnológica se converteu em vulnerabilidade estratégica. Para o Brasil, que possui a excelente Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) desde 2020 e neste momento debate intensamente a regulação das redes sociais e o Marco Legal da Inteligência Artificial, a experiência suíça oferece um roteiro juridicamente fundamentado para o desenvolvimento de capacidades críticas nacionais.
A arquitetura jurídica da soberania digital
A estratégia suíça se estrutura sobre três pilares jurídico-institucionais que merecem uma análise cuidadosa:
- Controle territorial de dados críticos: O modelo suíço assegura que nenhuma informação sensível cruze fronteiras nacionais, operando em conformidade com as rigorosas leis helvéticas de proteção de dados e ao Regulamento Europeu de Inteligência Artificial (EU AI Act). Para o Brasil, isto significa que dados governamentais, empresariais e pessoais de cidadãos brasileiros não estariam sujeitos a legislações estrangeiras como o CLOUD Act americano ou às pressões geopolíticas de potências tecnológicas.
- Infraestrutura estratégica nacional: O uso do supercomputador Alps, do Centro Nacional de Supercomputação Suíço, garante que a tecnologia subjacente permaneça sob controle nacional. No Brasil, isto se alinha com os princípios da Política Nacional de Segurança da Informação e Comunicações e reforça a necessidade de investimentos em infraestrutura computacional estratégica.
- Conformidade legal preventiva: O LLM suíço é desenvolvido em estrita aderência às normas de direitos autorais e proteção de dados, demonstrando que inovação tecnológica e compliance legal são perfeitamente compatíveis. Esta abordagem preventiva evita os litígios que atualmente assolam modelos de IA desenvolvidos por empresas privadas internacionais.
O multilinguismo como instrumento de soberania cultural
A ênfase suíça no multilinguismo – com treinamento em mais de 1.500 idiomas – não é apenas uma escolha técnica, mas uma declaração de soberania cultural, elemento central da revolução suíça na IA. Para o Brasil, país de dimensões continentais com rica diversidade linguística, incluindo centenas de línguas indígenas, esta abordagem representa uma oportunidade única de preservar e fortalecer nossa identidade cultural por meio da tecnologia. Imagine a riqueza cultural de ser possível executar um “prompt” em Macro-jê ou Tupi?
Para o Brasil, a lição suíça transcende questões tecnológicas e adentra o campo da segurança nacional. A dependência de modelos de IA desenvolvidos por potências estrangeiras implica vulnerabilidades estratégicas que podem comprometer capacidades defensivas críticas, proteção de dados sensíveis e autonomia regulatória.
Em um cenário geopolítico crescentemente polarizado, a posse de capacidades próprias de IA torna-se elemento essencial da defesa nacional, como evidencia a revolução suíça da IA ao demonstrar que autonomia tecnológica é um ativo estratégico. O Brasil, signatário da Estratégia Nacional de Defesa e possuidor de interesses estratégicos em setores como agronegócio, energia e recursos naturais, não pode permanecer dependente de tecnologias controladas por terceiros.
Além disso, a Constituição Federal de 1988, em seu artigo 5º, inciso XII, protege o sigilo de dados e comunicações. A utilização de modelos de IA estrangeiros para processar informações sensíveis do Estado brasileiro pode configurar violação destes preceitos constitucionais fundamentais.
Por último, mas não menos importante, o desenvolvimento de um LLM nacional permitiria ao Brasil implementar plenamente sua soberania regulatória, assegurando que as tecnologias utilizadas no país se alinhem com nossos valores democráticos e nosso ordenamento jurídico, incluindo a LGPD e o futuro Marco Legal da IA.
A urgência do “Efeito Brasília”
A iniciativa suíça demonstra que países médios podem liderar em tecnologia mantendo-se fiéis aos seus princípios jurídicos e valores nacionais. O Brasil, como quinta maior economia mundial e potência regional, possui condições para implementar um “Efeito Brasília” – um modelo próprio de desenvolvimento de IA que sirva aos interesses nacionais e regionais.
Esta não é apenas uma questão tecnológica, mas um imperativo de segurança nacional. A história nos ensina que nações que abdicam do controle sobre tecnologias estratégicas tornam-se vulneráveis a pressões externas e manipulação. Em um mundo onde a informação é poder, a soberania digital se confunde com a própria soberania nacional.
Mais do que isso, a Suíça provou que é possível, por meio da, conciliar excelência tecnológica com soberania nacional e conformidade legal. Portanto, a pergunta que devemos fazer não é se podemos nos dar ao luxo de desenvolver capacidades próprias de IA, mas se podemos nos dar ao luxo de não as desenvolver. Em um mundo onde a dependência tecnológica se traduz em vulnerabilidade estratégica, a soberania digital se tornou sinônimo de soberania nacional.
O momento é agora. O precedente suíço ilumina o caminho. Cabe ao Brasil decidir se seguirá este exemplo ou permanecerá na dependência tecnológica que compromete nossa segurança, nossa soberania e nosso futuro como nação autônoma e próspera.
