As coisas têm mudado no cenário das fraudes governamentais nos últimos anos. Os esquemas relativamente simples que víamos antes viraram operações sofisticadas que drenam bilhões dos cofres públicos e corroem a confiança do cidadão nas instituições. Mas avanços em inteligência artificial (IA) e analytics mostram que é possível virar esse jogo e reconstruir a confiança nos governos.

Fraude, desperdício e abuso respondem por cerca de 16% dos orçamentos públicos globalmente, segundo um estudo lançado recentemente pelo SAS. No Brasil, essa realidade não é diferente. Os casos vão desde empresas “coelho” manipulando licitações dando lances baixos para eliminar a concorrência, até pescadores recebendo seguro-defeso em Brasília. Sim, você leu direito: benefícios de pesca sendo pagos no Planalto Central.

 

O impacto destas práticas vai além do aspecto financeiro. Afinal, cada real desviado em fraudes significa que há uma escola que não foi construída, um hospital sem equipamento, uma estrada que deixou de ser pavimentada. E quando o cidadão percebe essas falhas, a confiança desce pelo ralo e dados comprovam isso. Segundo um estudo do SAS, 96% dos líderes do setor público reconhecem que as fraudes impactam de forma negativa a percepção da população a respeito de programas governamentais.

 

Em meio a tudo isso, os criminosos não param. Eles usam IA para criar identidades sintéticas, falsificar documentos em escala industrial, além de orquestrar ataques que burlam sistemas tradicionais de detecção. Para além disso, usam lacunas para perpetrar fraudes, como o caso em que uma mesma pessoa “adotou” 60 filhos para aumentar o acesso a benefícios sociais: algo tecnicamente legal, mas moralmente questionável. Em provas de conceito com agências governamentais, detectamos fraudes gigantescas que só vieram à tona publicamente quase uma década depois por falta de uma estratégia robusta para reagir. Isso resultou em bilhões de dinheiro do contribuinte desperdiçados em algo que poderia ter sido evitado.

 

A tecnologia como aliada estratégica

A boa notícia é que a mesma tecnologia que empodera os fraudadores pode ser também uma aliada. O estudo do SAS mostra que atualmente, só 52% das agências públicas usam IA no combate à fraude, mas 97% planejam adotá-la nos próximos dois anos. E os resultados de quem já segue este caminho são mensuráveis: organizações que implementaram essas tecnologias relatam mais eficiência, mais detecção de fraudes e melhor priorização de casos.

Um elemento importante destas iniciativas tem a ver com comunicar o trade-off entre o compartilhamento de dados e benefícios concretos. Por exemplo, quando o cidadão recebe seu imposto de renda pré-preenchido no portal Gov.br, ele experimenta, na prática, como fornecer seus dados pode facilitar sua vida. Ao mesmo tempo, o sistema detecta inconsistências que indicam sonegação e todos, governo e cidadão, ficam satisfeitos.

Existem outros exemplos neste sentido no Brasil e além. Um dos mais impactantes que acompanhei de perto foi no governo de um estado da região Sul do Brasil, onde cruzamos 30 anos de dados educacionais com informações de emprego, criminalidade e saúde. Com isso, conseguimos prever os estudantes que tinham maior propensão à evasão escolar e, consequentemente, a problemas sociais futuros. E, com essa informação em mãos, o estado implementou ações preventivas, transformando estatísticas em estratégias para virar o jogo.

Em Buenos Aires, desenvolvemos um sistema que monitora agressores domésticos com tornozeleiras eletrônicas e vítimas com botões de pânico. Quando os dispositivos se aproximam, alertas automáticos são enviados às autoridades. É a tecnologia salvando vidas em tempo real.

 

Superando barreiras e olhando para o futuro

Os cases mostram que os maiores obstáculos no uso da tecnologia para fortalecer a confiança entre cidadãos e governos não são tecnológicos, mas sim humanos e organizacionais. A falta de profissionais qualificados em analytics e orçamentos limitados são alguns dos entraves. Além disso, os silos institucionais impedem que informações sejam compartilhadas por questões políticas, fazendo com que não haja uma visão integrada – processo fundamental para combater fraudes sofisticadas.

A privacidade e uso ético da IA também está entre as preocupações dos líderes em agências de governos. Por isso, implementar governança desde o início é fundamental, bem como a supervisão por humanos, com transparência nos algoritmos e mecanismos para evitar vieses discriminatórios.

Outra nuance deste debate é que estamos entrando na era do “rio de dados”, com informações meteorológicas, de satélites, internet das coisas (IoT) e geolocalização, e tudo isso gera oportunidades de prevenção de fraudes que não eram possíveis anteriormente. Durante a pandemia, por exemplo, desenvolvemos sistemas de rastreamento inteligente que viabilizavam lockdowns apenas das pessoas que tiveram contato com alguém que estava infectado. Outras inovações são possíveis nessa frente, mas o cidadão precisa ver valor no compartilhamento dos dados. Por isso, governos precisam mostrar que maior arrecadação e eficiência operacional resultam em melhores serviços e, idealmente, uma carga tributária menor.

A transformação digital do setor público não é mais opcional, e sim uma necessidade urgente. Órgãos governamentais que liderarem essa mudança poderão combater fraudes de uma forma mais eficiente e reconstruir algo ainda mais valioso, que é a confiança do cidadão em suas instituições. O caminho é começar pequeno, com projetos de alto impacto, e expandir com base em resultados comprovados. A tecnologia está disponível, mas a questão é ter coragem de implementar estes recursos de uma forma ética e transparente, lembrando sempre que o principal cliente do setor público é o cidadão.

Leia outro artigo sobre o uso da IA para cometer e combater fraudes: IA: as duas faces de uma mesma moeda no combate à fraude

 




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